O número de pessoas que possuem criptomoedas no mundo ultrapassou mil milhões, segundo um levantamento da Coinpedia Research. O estudo estima 1,01 mil milhões de utilizadores, o equivalente a cerca de 12,2% da população mundial, um sinal de que o mercado cripto continua a avançar mesmo após a queda do valor total do setor, que recuou de um máximo de 4,2 biliões de dólares no final de 2025 para cerca de 2,67 biliões de dólares.
O crescimento revela uma mudança importante no setor. A adoção já não depende apenas da valorização do Bitcoin e de outras criptomoedas. Segundo o estudo, o uso de cripto divide-se em duas frentes: nos mercados desenvolvidos, o avanço vem sobretudo através de ETFs, fundos tokenizados e produtos regulados; nas economias emergentes, o uso cresce mais ligado a pagamentos, remessas internacionais, comércio entre pessoas e proteção contra a desvalorização das moedas locais.
A Índia lidera em número absoluto, com 127 milhões de utilizadores projetados, acima dos 119 milhões estimados em 2025. A Nigéria destaca-se em termos proporcionais, com 47% da população adulta a usar ou a deter criptoativos. Já os Estados Unidos continuam a ser o principal centro de capital institucional, com 67 milhões de utilizadores e a maior parte dos ativos em ETFs de cripto à vista.
O Brasil também surge entre os mercados relevantes. Segundo o levantamento, o país tem 26 milhões de utilizadores, com uma taxa de adoção de 12%, atrás do Vietname, que regista 18,7%. Na América Latina, o estudo indica que o Brasil responde por cerca de 33% da atividade regional em cripto, num mercado impulsionado sobretudo por stablecoins e pagamentos internacionais.
Stablecoins deixam de ser apenas instrumento de negociação
Um dos principais motores desta adoção são as stablecoins. O levantamento estima que a oferta total destes ativos chegou aos 305,5 mil milhões de dólares, com USDT e USDC a concentrarem juntas 82% do mercado. Enquanto o USDT domina os pares de negociação em corretoras centralizadas, o USDC tem maior peso na liquidação institucional e empresarial, segundo a Coinpedia.
O volume anual de liquidação em stablecoins atingiu 33 biliões de dólares, de acordo com o estudo. Desse total, o USDT responde por 13,3 biliões de dólares, enquanto o USDC movimenta 18,3 biliões de dólares. A leitura da Coinpedia é que as stablecoins se tornaram a principal infraestrutura transacional do mercado cripto, usadas não só em negociações, mas também em pagamentos, remessas e liquidação entre empresas.
Este avanço ajuda a explicar a importância de redes de baixo custo, como Tron e Solana, no uso quotidiano de cripto. O estudo aponta a Solana com 4,7 milhões de utilizadores ativos diários, seguida pela Tron, com 3,7 milhões, em grande parte devido ao seu papel nas transferências de stablecoins entre pessoas e em mercados emergentes.
A adoção também se reflete na comparação de custos das remessas internacionais. Segundo o levantamento, as transferências tradicionais têm um custo médio global de 6,49%, podendo chegar a 8,78% na África Subsariana e ultrapassar 30% em algumas rotas intra-africanas. Já os corredores de pagamento com cripto e stablecoins reduziriam esse custo para valores entre 1% e 3%, incluindo as taxas de conversão entre moeda local e ativos digitais.
ETFs, tokenização e regulação ampliam o uso institucional
Do lado institucional, os ETFs surgem como um dos principais vetores de entrada. Segundo o levantamento, os produtos cripto regulados acumulam 72,9 mil milhões de dólares em entradas líquidas em 12 ativos aprovados. A Coinpedia considera que estes veículos ajudaram a levar as criptomoedas a investidores tradicionais, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa.
Outro destaque é a tokenização de ativos do mundo real. O estudo estima que o mercado on-chain de RWA (ativos do mundo real) chegou a cerca de 340 mil milhões de dólares, considerando stablecoins lastreadas em moeda fiduciária, matérias-primas tokenizadas, tokens com rendimento e dívida institucional. Dentro deste mercado, os títulos do Tesouro dos EUA tokenizados somam 15,1 mil milhões de dólares, com o fundo BUIDL, da BlackRock, na liderança entre os produtos deste tipo.
A regulação passou também a ter um papel central nesta nova fase. O levantamento cita a consolidação de estruturas formais de licenciamento em mercados como os Estados Unidos, a União Europeia — através do regulamento MiCA —, o Reino Unido, Singapura, Hong Kong, os Emirados Árabes Unidos e o Japão, com exigências de KYC, prevenção do branqueamento de capitais, auditoria de reservas para stablecoins e regras de identificação de transferências.
A conclusão do estudo é que a adoção cripto se está a descolar, em parte, dos ciclos de preço. Mesmo com o mercado abaixo dos máximos de 2025, o uso de stablecoins, ETFs, tokenização, redes de baixo custo e aplicações descentralizadas mostra que a infraestrutura continua a avançar. Para o investidor, isto indica que a próxima fase do setor pode depender menos apenas da subida do Bitcoin e mais da utilidade prática das redes blockchain no sistema financeiro global.
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