O cofundador da Ethereum, Vitalik Buterin, apresentou uma visão de longo prazo segundo a qual a rede abandona a sua semelhança inicial com a Bitcoin e se torna naquilo que descreve, nas suas próprias palavras, como "o computador criptográfico mundial". O ensaio, publicado a 27 de setembro, traça uma linha desde o design da Bitcoin em 2010, passando pelo lançamento da Ethereum em 2015, até à rede tal como existe hoje, argumentando que a distância já percorrida é substancial e que se alargará de forma acentuada até ao final da década.

Para um público europeu que acompanha a Ethereum sobretudo através da adoção institucional e do escrutínio regulatório, a formulação de Buterin é relevante porque reformula a identidade da rede. Em vez de uma versão mais rápida ou mais programável da Bitcoin, descreve a Ethereum como estando a caminhar para uma arquitetura assente em criptografia avançada, na qual a verificação e o cálculo são geridos de formas fundamentalmente diferentes das do design original de qualquer uma das duas redes.

O PeerDAS como ponto de viragem

Segundo o ensaio, o verdadeiro ponto de inflexão é o PeerDAS, uma atualização que permite aos nós confirmar a disponibilidade dos dados por amostragem, em vez de descarregar e reexecutar um bloco inteiro. Buterin apresenta este momento como aquele em que os pressupostos centrais da rede começam a divergir do modelo ao estilo Bitcoin com que começou, descrevendo as fases anteriores da evolução da Ethereum como estando, na prática, "encapsuladas" nesse paradigma original.

O próximo passo agendado é uma atualização chamada Hegotá, prevista para o próximo ano. Buterin caracteriza-a como o último "fork normal" pelo qual a rede passará, um hard fork convencional e standard do tipo que a Ethereum tem realizado repetidamente desde 2015. Depois do Hegotá, sugere, o ritmo e a natureza da mudança deverão passar a ser menos incrementais.

O que vem depois de 2030

Buterin prevê que, até 2030, praticamente todas as propriedades fundamentais da rede terão sido transformadas. Entre os desenvolvimentos que aponta estão os STARKs recursivos, a verificação formal automatizada, algoritmos de consenso altamente otimizados e medidas orientadas para a resistência a computadores quânticos. Enquadra o trabalho futuro em torno de duas frentes técnicas: tornar as provas de conhecimento zero simultaneamente eficientes e seguras, e gerir e paralelizar o acesso a volumes de dados de estado cada vez maiores.

Nenhuma das frentes é trivial, e o ensaio não oferece um calendário detalhado para além do Hegotá sobre como estas peças se encaixam. O que oferece é um marco claro: o design da Bitcoin de 2010 e o lançamento da Ethereum em 2015 são tratados como pontos de referência para um sistema que, segundo Buterin, já está a deixar ambos para trás.

Buterin também publicou sobre o ensaio no X, antigo Twitter, chamando a atenção para o texto para além da comunidade de investigação da Ethereum que habitualmente lê os seus escritos técnicos mais longos.