As três autoridades europeias de supervisão financeira — a EBA, a EIOPA e a ESMA — apresentaram, a 10 de setembro de 2026, uma atualização conjunta de riscos à Mesa de Estabilidade Financeira do Comité Económico e Financeiro da UE, descrevendo o sistema financeiro do bloco como globalmente resiliente mas exposto a um conjunto de vulnerabilidades estruturais que merecem atenção redobrada com a chegada do outono.
A atualização, relativa ao outono de 2026, identifica três áreas de preocupação: dependências externas, tecnologias emergentes e o rápido crescimento do crédito privado. Nenhuma delas é apresentada como uma ameaça imediata à estabilidade, mas as autoridades defendem que cada uma merece acompanhamento, dada a rapidez com que as condições podem mudar.
Dependência de fornecedores extracomunitários
No que respeita às dependências externas, as autoridades assinalam que o setor bancário da UE depende fortemente de fornecedores extracomunitários para infraestruturas de TIC e sistemas de pagamento. Os mercados de compensação, operações de reporte (repo) e classificações de risco de crédito são também maioritariamente intermediados por entidades fora da UE, uma concentração que os supervisores identificam como uma exposição estrutural para a infraestrutura financeira do bloco. Separadamente, os bancos enfrentam lacunas de financiamento em determinadas divisas extracomunitárias, nomeadamente dólares americanos, libras esterlinas e francos suíços.
Computação quântica e carteiras cripto antigas
Entre as tecnologias emergentes, a atualização refere a trajetória da computação quântica. A IBM previu a utilização comercial da computação quântica dentro de quatro anos ou menos, um prazo com implicações para a segurança criptográfica em vários setores. A CryptoQuant estima que aproximadamente 6,89 milhões de bitcoin se encontram em carteiras antigas que poderão ficar potencialmente expostas a um futuro ataque quântico, caso os padrões criptográficos não sejam atualizados a tempo.
A Comissão Europeia já definiu um roteiro que exige que os Estados-Membros iniciem a transição para a criptografia pós-quântica até ao final de 2026, com um prazo adicional até 2030 para utilizações de alto risco. A conjugação do calendário comercial da IBM com o calendário de transição da própria Comissão explica por que os supervisores tratam esta questão como uma preocupação de curto prazo, e não meramente teórica.
Crédito privado ainda contido
No que toca ao crédito privado, as autoridades descrevem o mercado da UE como relativamente pequeno em comparação com o seu equivalente global, com exposições agregadas limitadas por parte de bancos e seguradoras. O crescimento do setor é assinalado como uma tendência a vigiar, e não como uma fonte de instabilidade atual.
Um retrato resiliente, mas desigual
O panorama de mercado mais amplo descrito na atualização é misto. Os mercados acionistas da UE atingiram máximos históricos num período de tensões no Médio Oriente, enquanto as yields obrigacionistas subiram com um alargamento limitado dos spreads. Os bancos continuam a apresentar rentabilidade sólida e elevados índices de capital, sustentados pela geração orgânica de capital, e a qualidade dos ativos mantém-se resiliente, com níveis baixos de créditos não produtivos — embora as autoridades esperem alguma deterioração nas carteiras de imobiliário comercial e de PME.
Os fundos de investimento apresentam também um risco de concentração notável: os fundos de ações UCITS da UE e os fundos alternativos têm uma exposição substancial aos Estados Unidos, enquanto os fundos obrigacionistas se encontram mais diversificados geograficamente.
O Comité Conjunto das Autoridades Europeias de Supervisão utilizou a atualização para apelar a uma maior preparação para crises, melhor coordenação no planeamento de resolução e uma regulação capaz de se adaptar mais rapidamente aos riscos identificados, desde a disrupção tecnológica às dependências externas de mercado.




