A Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo em volume de negociação, sofreu esta quinta-feira (29) um ataque informático que desviou mais de 5,7 mil milhões de dólares em ativos digitais. O incidente levou empresas como a Tether e a Circle a congelar milhares de milhões de dólares em stablecoins, provocou a suspensão temporária de depósitos e levantamentos na plataforma e pressionou o mercado, com o Bitcoin a cair abaixo dos 78 mil dólares.

O valor ainda não foi confirmado oficialmente pela Binance. A estimativa foi apresentada por empresas especializadas em análise de blockchain, que identificaram movimentações suspeitas envolvendo carteiras da corretora em diferentes redes.

Se confirmada, a perda superaria o ataque de aproximadamente 1,5 mil milhões de dólares sofrido pela Bybit em fevereiro de 2025, tornando-se o maior roubo de criptomoedas alguma vez registado.

A Chainalysis estimou o valor potencialmente desviado em aproximadamente 5,9 mil milhões de dólares, enquanto a Arkham Intelligence identificou mais de 5,7 mil milhões de dólares em ativos associados às carteiras suspeitas. Outras análises apresentaram valores diferentes, consoante as redes e transações consideradas.

Entre os ativos movimentados estão Bitcoin, Ethereum (ETH) e stablecoins como USDT e USDC. O rastreio da Arkham identificou aproximadamente 1,5 mil milhões de dólares em Bitcoin, 900 milhões de dólares em Ethereum e mais de 2 mil milhões de dólares nas duas principais stablecoins.

A Binance reconheceu as notícias sobre um possível problema de segurança e afirmou que as suas equipas estavam a investigar o caso. "Estamos cientes das notícias sobre um possível problema de segurança e estamos a investigar ativamente. As nossas equipas estão a analisar todas as informações relevantes com urgência", informou a empresa em comunicado.

Inicialmente, a corretora declarou que não havia confirmado qualquer impacto sobre os fundos dos clientes. Posteriormente, Yi He, cofundadora e co-CEO da Binance, afirmou que a empresa cobriria eventuais perdas decorrentes do ataque. "A Binance cobrirá todas as perdas causadas pelo ataque informático", declarou a responsável.

A plataforma anunciou também a suspensão temporária de depósitos e levantamentos para realizar verificações de segurança e rastrear os fundos movimentados. As negociações na Binance Alpha foram interrompidas por precaução.

Até à última atualização, a exchange não tinha divulgado a causa da possível invasão nem apresentado um balanço definitivo dos prejuízos.

Tether, Circle e Ripple congelam milhares de milhões em criptomoedas

A movimentação suspeita foi identificada inicialmente por investigadores que acompanham transações públicas na blockchain.

O investigador conhecido como Spreek apontou transferências de grandes quantidades de criptomoedas de carteiras ligadas à Binance para endereços sem identificação pública.

Parte desses fundos começou a ser movimentada posteriormente por outras carteiras e plataformas de finanças descentralizadas, aumentando as suspeitas de que a exchange tivesse sofrido uma invasão.

Perante os alertas, empresas emissoras de stablecoins começaram a bloquear os ativos associados às movimentações.

A Tether, responsável pela USDT, confirmou o congelamento de aproximadamente 1,57 mil milhões de dólares. Já a Circle, emissora da USDC, bloqueou mais de 800 milhões de dólares relacionados com o incidente. As duas medidas somam aproximadamente 2,38 mil milhões de dólares em stablecoins congeladas.

A Ripple participou também nos esforços de contenção. Segundo informações divulgadas pela Binance, a empresa bloqueou cerca de 200 milhões de dólares em ativos relacionados com o caso.

Além disso, a World Liberty Financial, empresa ligada à família do presidente norte-americano Donald Trump, informou ter colaborado para congelar fundos associados às movimentações suspeitas.

Com estas e outras medidas, a Binance afirmou que aproximadamente 3 mil milhões de dólares em ativos já tinham sido congelados, montante que poderia aumentar à medida que as investigações avançassem.

O congelamento é possível porque stablecoins como USDT e USDC têm emissores capazes de restringir a movimentação de determinados tokens nas suas redes.

Este mecanismo permite impedir que fundos identificados como provenientes de uma possível atividade criminosa continuem a circular, embora o bloqueio não represente necessariamente a recuperação definitiva dos valores.

O mesmo tipo de medida não pode ser aplicado diretamente ao Bitcoin, que não tem uma entidade central responsável por autorizar ou bloquear transações.

Segundo a CoinDesk, o responsável pelas movimentações suspeitas realizou também operações em plataformas descentralizadas, como Uniswap e Aave. Numa delas, foram utilizados ativos em garantia para obter aproximadamente 44 milhões de dólares em Ethereum representado na rede.

A Aave informou que adotou medidas preventivas em determinados mercados de empréstimo e sublinhou que os seus contratos inteligentes não tinham sido comprometidos.

A rapidez com que os fundos foram movimentados e congelados tornou o caso uma operação de rastreio que envolve exchanges, emissores de stablecoins, empresas de análise de blockchain e autoridades policiais.

Bitcoin cai e Binance promete proteger clientes

As notícias sobre o possível ataque provocaram uma forte reação no mercado de criptomoedas. O Bitcoin caiu para a região dos 77 mil dólares, atingindo o seu nível mais baixo em aproximadamente seis semanas. O Ethereum recuou para perto dos 2.200 dólares, enquanto o BNB, token associado ao ecossistema da Binance, chegou a perder mais de 8% em 24 horas.

As ações de empresas ligadas ao setor foram também pressionadas. A Coinbase registou uma queda de aproximadamente 4,8% nas negociações após o fecho do mercado norte-americano, enquanto a Strategy recuou quase 6%.

A reação reflete a preocupação dos investidores com a dimensão do possível incidente e os seus efeitos sobre a confiança nas plataformas centralizadas.

A Binance tinha aproximadamente 144 mil milhões de dólares em ativos de clientes sob a sua responsabilidade antes das movimentações suspeitas, segundo dados da DefiLlama citados pela CoinDesk. Caso a perda de aproximadamente 5,7 mil milhões de dólares seja confirmada, equivaleria a cerca de 4% desse montante.

Uma das principais dúvidas é como a exchange compensará os ativos eventualmente comprometidos.

A empresa mantém desde 2018 o Secure Asset Fund for Users (SAFU), uma reserva criada para proteger clientes em situações de emergência, incluindo incidentes de segurança. O fundo tem aproximadamente 1.000 milhões de dólares em Bitcoin.

Contudo, esse valor seria inferior às estimativas mais elevadas de perdas apresentadas pelos investigadores. A Binance não detalhou se irá utilizar o SAFU, fundos próprios ou outros mecanismos para cobrir os valores.

Changpeng Zhao, fundador e ex-CEO da empresa, afirmou que o episódio parecia ser um ataque informático, mas sublinhou que já não participa na gestão da plataforma.

"Já não administro a Binance, mas, enquanto acionista, espero que todos os fundos dos utilizadores sejam integralmente cobertos", escreveu Zhao nas redes sociais.

A exchange afirmou que está a trabalhar com autoridades e empresas do setor para rastrear e congelar os ativos envolvidos. Orientou ainda os clientes a seguir exclusivamente os seus canais oficiais, dado o risco de burlas que utilizem o incidente como pretexto para solicitar informações pessoais ou acesso a contas.

A Binance.US, empresa separada que atua nos Estados Unidos, informou que não foi afetada pelo episódio. A Coinbase declarou também que as suas operações não foram comprometidas.

Até ao momento, não existe uma conclusão pública definitiva sobre a origem da falha de segurança, a identidade dos responsáveis ou o valor efetivamente perdido.

A investigação deverá ainda esclarecer quanto dos fundos congelados poderá ser recuperado e quando serão restabelecidos os serviços temporariamente suspensos pela Binance.

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