O governo do Reino Unido publicou uma nova Estratégia de Combate ao Branqueamento de Capitais e Recuperação de Ativos, cobrindo o período de 2026 a 2029, comprometendo 500 milhões de libras (cerca de 740 milhões de dólares) para expandir a capacidade de fiscalização e implementar inteligência artificial contra o crime financeiro. A estratégia, emitida conjuntamente pelo Home Office e pelo HM Treasury, surge após uma estimativa da National Crime Agency de que mais de 100 mil milhões de libras são branqueados anualmente através de estruturas sediadas no Reino Unido.

O financiamento, proveniente do Economic Crime Levy, servirá para pagar 500 novos agentes especializados nos diversos organismos de fiscalização. No primeiro ano, o governo identificou como prioridade o desmantelamento de redes profissionais internacionais de branqueamento de capitais, com particular atenção a esquemas ligados à Rússia.

Nova arquitetura institucional

O plano cria um Asset Recovery Office (Gabinete de Recuperação de Ativos) dentro da National Crime Agency, e concede à UK Financial Intelligence Unit novos poderes legislativos para apoiar investigações. Até ao terceiro ano da estratégia, prevê-se que a Companies House esteja totalmente integrada como um guardião ativo, em vez de um simples registo passivo, uma mudança destinada a fechar uma via de longa data para o abuso de sociedades de fachada.

A Financial Conduct Authority deverá assumir a supervisão consolidada de combate ao branqueamento de capitais nos setores jurídico, contabilístico e de serviços fiduciários e societários a partir de 2028, reunindo sob um único regulador profissões historicamente supervisionadas por um conjunto fragmentado de organismos.

Registo de fiscalização e sanções recentes

O governo apontou dados do ano fiscal de 2025/26 para justificar o reforço: 3.158 desmantelamentos de financiamento ilícito, um aumento de 15% em termos homólogos, além de 4.085 condenações por branqueamento de capitais, um aumento de 11%. As autoridades recuperaram 345,3 milhões de libras em ativos no mesmo período, negaram 1,1 mil milhões de libras a estruturas criminosas e devolveram 26,1 milhões de libras a vítimas de fraude.

A estratégia surge também num contexto de ações de fiscalização contra grandes instituições financeiras. O Barclays foi multado em 42 milhões de libras por deficiências nos seus controlos de combate ao branqueamento de capitais, um caso citado como ilustração das lacunas que a nova arquitetura de supervisão pretende resolver.

Por que importa além do Reino Unido

Para as empresas de criptomoedas que operam no mercado britânico ou em conjunto com ele, a estratégia assinala um período de maior escrutínio, à medida que ferramentas de deteção baseadas em IA e uma Financial Intelligence Unit com mais recursos entram em funcionamento. A consolidação da supervisão sob a FCA e a transformação da Companies House num guardião ativo apontam ambas para uma vigilância mais próxima das estruturas societárias frequentemente usadas para movimentar fundos entre fronteiras, incluindo aquelas que se cruzam com os mercados de ativos digitais.

O Royal United Services Institute, fundado em 1831 pelo primeiro Duque de Wellington e descrito como o mais antigo think tank de defesa e segurança do mundo, acompanha há anos a política britânica de combate ao crime financeiro e figura entre as instituições que deverão avaliar a implementação da estratégia à medida que esta avança.