Christine Lagarde usou uma intervenção perante o Fundo Monetário Internacional, a 17 de outubro, para defender o recente aperto monetário do Banco Central Europeu e para pressionar os legisladores da União Europeia a tomarem uma decisão há muito adiada sobre o euro digital, avisando que o tempo está a esgotar-se para manter o projeto dentro do calendário previsto.
O BCE subiu a sua taxa de depósito duas vezes este ano, 25 pontos base em junho e em setembro, levando-a para 2,50% a partir de 16 de setembro. Lagarde afirmou que a inflação, que se fixou em 3,8% na zona euro em setembro, face a uma leitura núcleo de 2,5%, não podia ser avaliada "isoladamente" das pressões ligadas à energia, e descreveu a abordagem do banco central como "medida". Questionada sobre as perspetivas para novos movimentos, disse não haver "nenhum sinal, nesta fase", de uma alteração da postura atual. O Conselho do BCE reúne-se novamente a 29 de outubro, com a decisão final do ano agendada para 16 e 17 de dezembro. Prevê-se que a economia da zona euro cresça 0,9% em 2026 e 1,4% em 2027.
Pressão sobre Bruxelas quanto ao euro digital
A mensagem mais incisiva de Lagarde foi dirigida ao Parlamento Europeu e aos Estados-membros, e não aos mercados. A Comissão Europeia propôs um regulamento que estabelece o euro digital em junho de 2023, mas o texto ainda não foi aprovado. O Eurosistema construiu o seu planeamento em torno de um projeto-piloto interno de 12 meses, na segunda metade de 2027, um calendário que depende da aprovação do regulamento até ao final de 2026. Lagarde classificou a finalização das regras como "essencial", enquadrando o projeto como uma questão de "autonomia estratégica" europeia nos pagamentos, numa área em que a dependência das infraestruturas da Visa e da Mastercard há muito preocupa responsáveis em Frankfurt. Descreveu o euro digital como destinado à "coexistência" com os sistemas de pagamento privados existentes, e não como um substituto destes.
No plano técnico, o BCE assinalou progressos recentes: a sua plataforma Pontes, que permite a liquidação em moeda de banco central de transações realizadas em registos distribuídos, começou a operar a 21 de setembro, juntamente com a iniciativa Appia. O trabalho exploratório do Eurosistema no âmbito do EUREP suscitou, nos últimos seis meses, o interesse de mais de 30 bancos centrais estrangeiros, referiu Lagarde, à medida que outras jurisdições ponderam mecanismos de liquidação semelhantes.
Riscos de estabilidade para além das criptomoedas
Lagarde aproveitou ainda a tribuna do FMI para assinalar preocupações de estabilidade financeira que vão além das moedas digitais, apontando os fundos de crédito privado e a rápida adoção de inteligência artificial pelas instituições financeiras como áreas em que os riscos aumentaram "de forma marcada" e onde as vulnerabilidades continuam "elevadas". Traçou um paralelo com episódios passados do mercado cripto, recordando que a Bitcoin perdeu quase dois terços do seu valor em 2022, ano em que a Celsius congelou os levantamentos dos clientes em junho, como um lembrete de quão depressa a alavancagem e a concentração se podem transformar em perdas para os pequenos investidores.
Para o público europeu, a mensagem combinou uma defesa da atual trajetória de taxas do BCE com um prazo renovado para os legisladores: sem um regulamento do euro digital aprovado até ao final de 2026, a fase-piloto prevista para 2027 não poderá avançar como planeado.




