O programa Fantástico, da TV Globo brasileira, anunciou que vai exibir no próximo domingo uma entrevista com Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como Faraó do Bitcoin, preso desde 2021 e apontado como líder de um dos maiores esquemas de pirâmide financeira com criptomoedas do Brasil. Segundo a chamada do programa, ele vai falar pela primeira vez sobre o caso e vai revelar como manipulava o mercado para sustentar a promessa de rendimentos elevados que levou milhares de investidores à GAS Consultoria.
A entrevista recoloca o caso no centro das atenções às vésperas de uma nova etapa judicial. O julgamento de Glaidson, que estava previsto para esta semana, foi adiado para 25 de fevereiro de 2027. Será julgado pelo Tribunal do Júri do Rio de Janeiro num processo que envolve acusações relacionadas com a morte do trader Wesley Pessano, de 19 anos, e a tentativa de homicídio contra o investidor Nilson Alves da Silva, conhecido como Nilsinho.
Glaidson ficou conhecido nacionalmente por dirigir a GAS Consultoria, empresa sediada em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro (Brasil), que prometia retornos fixos de 10% ao mês com supostas operações de trading de criptomoedas. A Polícia Federal brasileira estimou que pelo menos 300 mil pessoas investiram na empresa, atraídas pela promessa de rendimento elevado.
A prisão ocorreu a 25 de agosto de 2021, durante a Operação Kryptos, desencadeada pela Polícia Federal brasileira para investigar a GAS. Em casa de Glaidson, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, os agentes apreenderam bitcoins, barras de ouro, carros de luxo e mais de 2,18 milhões de euros em dinheiro, segundo reportagens sobre o caso.
De promessa de lucro a acusação de pirâmide
A GAS apresentava-se como uma empresa de consultoria e investimentos em criptomoedas. O modelo, porém, passou a ser investigado como pirâmide financeira porque prometia rentabilidade fixa e elevada num mercado conhecido precisamente pela volatilidade. Segundo as investigações, o dinheiro de novos investidores era usado para sustentar pagamentos a clientes antigos, dinâmica típica deste tipo de fraude.
As investigações também apontaram que a empresa movimentava fundos através de exchanges estrangeiras. Em 2021, ficou demonstrado que a GAS comprava e vendia criptoativos em plataformas como Binance, Bitstamp, Bitfinex e Bittrex, depois de ter tido operações bloqueadas por uma corretora brasileira em 2017 por suspeita de fraude. Só na Binance, Glaidson teria movimentado mais de 167,8 milhões de euros, segundo informações citadas na época.
Além da esfera criminal, o caso teve também desdobramentos administrativos. Em 2024, o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, órgão brasileiro, manteve a condenação aplicada pela CVM (a autoridade de mercados de capitais do Brasil) à GAS Consultoria, a Glaidson e à sua então esposa, Mirelis Diaz Zerpa. O organismo confirmou a punição por operação fraudulenta e oferta de valores mobiliários sem registo, numa decisão que somou cerca de 17,1 milhões de euros em multas aos envolvidos.
O caso ganhou ainda mais gravidade com acusações de violência contra concorrentes no mercado de criptomoedas. Uma reportagem anterior do mesmo programa mostrou que as investigações apontavam que Glaidson teria mandado assassinar rivais e usado uma rede com empresas de fachada, corrupção de autoridades e até a compra de uma operação policial contra concorrentes.
Julgamento fica para 2027
O julgamento marcado para este ano foi remarcado para fevereiro de 2027. O processo trata da acusação de homicídio de Wesley Pessano, morto em 2021, e da tentativa de homicídio contra Nilsinho. Inicialmente, o caso seria julgado em Cabo Frio, mas foi transferido para a capital do estado do Rio de Janeiro.
A entrevista anunciada pelo programa deverá ser a primeira vez em que Glaidson fala publicamente sobre o funcionamento do esquema, depois de anos preso e com diferentes frentes de investigação abertas. A promessa de que vai explicar como manipulava o mercado para manter rendimentos fora da realidade pode trazer novos detalhes sobre uma engrenagem que marcou o mercado cripto brasileiro e ajudou a popularizar, de forma negativa, o uso do Bitcoin como fachada para esquemas fraudulentos.
O caso ganhou também importância para o setor por se ter tornado um símbolo do período anterior à regulação específica de criptoativos no Brasil. Desde então, o banco central brasileiro passou a estruturar regras para prestadoras de serviços de ativos virtuais, enquanto as autoridades reforçaram a fiscalização sobre empresas que oferecem produtos de investimento com promessa de retorno fixo usando cripto como chamariz — um paralelo ao que hoje, na Europa, é enquadrado pelo regulamento MiCA e pela supervisão da ESMA e das autoridades nacionais competentes.
Mais de cinco anos após a prisão, o Faraó do Bitcoin continua a ser um dos nomes mais conhecidos da história recente de fraudes financeiras no Brasil. A entrevista de domingo deverá reacender perguntas que ainda rodeiam o caso: quanto dinheiro foi perdido, onde estão os fundos remanescentes e como um negócio baseado na promessa de 10% ao mês conseguiu crescer durante tanto tempo até se tornar alvo de uma das maiores operações contra pirâmides cripto no Brasil.
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