Os ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos registaram na quinta-feira (3) a maior entrada líquida diária desde janeiro, mais um sinal do regresso da procura institucional depois da melhoria do cenário macroeconómico. Segundo dados da SoSoValue, os fundos receberam 730,9 milhões de dólares num único dia, com forte concentração no IBIT, da BlackRock.
O movimento ocorreu no mesmo dia em que o Bitcoin voltou a superar os 81 mil dólares, impulsionado por uma queda nas apostas de subida de juros pela Reserva Federal (Fed) em setembro. A mudança de tom veio depois de declarações do diretor do Fed, Christopher Waller, que indicou preferência por manter os juros estáveis caso os próximos dados confirmem a desaceleração da inflação.
A reação foi imediata nos mercados. As probabilidades de uma subida de juros na reunião de setembro caíram de 63,2% para 50,4% depois das declarações de Waller, segundo a ferramenta FedWatch, do CME, citada pela Reuters. Juros mais baixos ou estáveis favorecem ativos de risco e sem rendimento próprio, como o bitcoin, as ações tecnológicas e o ouro.
No caso dos ETFs, o destaque ficou novamente com a BlackRock. O IBIT recebeu cerca de 454 milhões de dólares dos 731 milhões que entraram nos fundos de bitcoin na quinta-feira. O ARKB, da Ark e da 21Shares, captou aproximadamente 138 milhões de dólares, enquanto o FBTC, da Fidelity, atraiu 74 milhões de dólares. Produtos da Grayscale também registaram entradas, segundo a CoinDesk.
O dado inverteu rapidamente a pressão observada no início da semana. Na terça-feira, os ETFs de bitcoin tinham registado uma saída de 236 milhões de dólares, também impulsionada pelo IBIT, responsável por cerca de 201 milhões de dólares em reembolsos. Agora, o mesmo fundo liderou a maior entrada da semana, reforçando o peso da BlackRock na leitura do fluxo institucional para o BTC.
BlackRock concentra o fluxo institucional
Para Rachael Lucas, analista de criptomoedas da BTC Markets, a concentração no IBIT é o principal sinal de que o movimento tem perfil institucional. Segundo a analista, esse é o veículo utilizado por grandes investidores para operações de maior dimensão, o que sugere fluxo de alocação, e não apenas posicionamento táctico de curto prazo.
A leitura é reforçada pelo desempenho de agosto. Os ETFs de bitcoin dos EUA atraíram 3,5 mil milhões de dólares no mês passado, o melhor resultado desde setembro de 2025. A entrada de quinta-feira foi também a maior desde 14 de janeiro.
Os fundos encerraram o dia com 103,34 mil milhões de dólares em activos líquidos, valor equivalente a pouco mais de 6% da capitalização de mercado do bitcoin. Desde o lançamento dos ETFs à vista nos EUA, em janeiro de 2024, as entradas líquidas acumuladas chegaram a 55,44 mil milhões de dólares.
A recuperação também se estendeu a ações ligadas ao mercado cripto. A Strategy, a maior detentora corporativa de bitcoin, subiu 17,6% na quinta-feira. A Coinbase avançou cerca de 10%, enquanto a Circle fechou com uma valorização de 16,5%.
Jeff Mei, COO da BTSE, afirmou ao The Block que Waller deu uma espécie de "sinal verde" ao mercado ao indicar que pode defender juros estáveis se a inflação continuar a desacelerar. Segundo Mei, a declaração ajudou a impulsionar ações de crescimento e criptoativos.
Diante disto, é importante observar se os ETFs conseguirão repetir entradas relevantes nas próximas sessões. Uma segunda sessão acima de 500 milhões de dólares ajudaria a confirmar uma procura institucional mais sustentada, enquanto um regresso aos reembolsos indicaria que a entrada de quinta-feira pode ter sido apenas um ajuste pontual.
Lucas destacou também que o bitcoin tem mostrado um comportamento diferente do padrão mais associado às ações tecnológicas. Segundo a analista, a correlação de 90 dias entre o BTC e o ouro subiu para o nível mais alto em seis anos, acima de 50%, enquanto a correlação com o S&P 500 caiu para perto de zero. A leitura é que o mercado poderá estar a avaliar o bitcoin mais como protecção contra a inflação e a desvalorização monetária do que apenas como um activo de risco.
Ainda assim, esta mudança precisa de ser confirmada durante mais tempo. Por agora, o que os dados mostram é uma combinação favorável para o bitcoin: juros a ceder, dólar mais fraco, ETFs a voltar a captar e investidores institucionais a aumentar a exposição. O teste será agora saber se este fluxo resiste aos próximos dados dos Estados Unidos.
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