O Bitcoin voltou a comportar-se mais como o ouro durante a recente pressão no mercado de títulos públicos dos Estados Unidos. Segundo dados da Bitwise, a correlação de 90 dias entre o BTC e o metal precioso atingiu o nível mais alto em quase seis anos, num movimento que reforça a leitura de parte do mercado de que a criptomoeda tem vindo a ganhar espaço como proteção contra riscos de desvalorização das moedas tradicionais.
A aproximação ocorreu depois da subida dos juros dos Treasuries de longo prazo dos EUA e da decisão do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de ampliar as compras de títulos de longo prazo. Na semana seguinte, o Bitcoin subiu 22,4%, a sua maior subida semanal desde março de 2024, enquanto o ouro avançou cerca de 5% e as ações caíram, destacou André Dragosch, diretor de investigação da Bitwise na Europa, em relatório.
Segundo Dragosch, a última leitura comparável de correlação entre Bitcoin e ouro tinha ocorrido em 2020, durante a resposta de governos e bancos centrais à crise da Covid-19, marcada por forte estímulo fiscal e monetário. O Bitcoin também terminou agosto com correlação negativa com o índice DXY, que mede o dólar contra um cesto de moedas globais, o que sugere que a fraqueza da moeda americana tende a favorecer tanto o BTC como o ouro.
"Quando as coisas ficam sérias e as forças macroeconómicas são fortes, os investidores discriminam cada vez menos entre Bitcoin e ouro ao navegar pelos riscos crescentes de desvalorização monetária", afirmou Dragosch. "Nesses cenários, o Bitcoin começou recentemente a parecer uma versão amplificada do ouro."
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Bitcoin descola-se das ações, mas analistas mantêm cautela
O movimento reacendeu também a discussão sobre até que ponto o Bitcoin ainda se comporta como um ativo tecnológico ou como uma reserva de valor alternativa. Segundo a Glassnode, a correlação de 30 dias do BTC com o S&P 500 caiu para perto de zero durante o rali de agosto, enquanto as ações americanas permaneceram praticamente estáveis.
Ainda assim, a própria Glassnode pondera que estes episódios de descolamento durante vendas fortes em títulos soberanos costumam ser curtos. Ou seja, a queda da correlação com as ações pode indicar mais um momento pontual de exaustão do mercado do que uma mudança estrutural definitiva no comportamento do Bitcoin.
Eric Balchunas, analista sénior de ETFs da Bloomberg, entrou também no debate. Afirmou que, nos últimos seis meses, o Bitcoin teve uma correlação menor com as ações americanas do que o ouro, empresas de menor dimensão, mercados emergentes e até os Treasuries. Para ele, o argumento de que o BTC é apenas uma versão do Nasdaq perde força quando outros ativos tradicionais também passam a mover-se de forma mais parecida com as ações.
Esta discussão ganhou força depois de o Bitcoin ter ultrapassado a marca dos 80 mil dólares no final de agosto, acumulando uma subida mensal de cerca de 25%, antes de devolver parte dos ganhos e recuar para a região dos 76 mil dólares. No momento citado pelos analistas, o BTC era negociado perto dos 77,6 mil dólares.
A Glassnode identificou uma concentração de moedas de investidores de longo prazo entre os 83 mil e os 86 mil dólares, faixa que pode funcionar como zona de resistência caso o Bitcoin volte a subir. Do outro lado, o principal piso de acumulação surge entre os 62 mil e os 65 mil dólares, região onde os compradores de médio e longo prazo teriam maior presença.
ETFs e oferta em lucro reforçam leitura de mercado mais forte
Outro dado acompanhado pelos analistas é a parcela da oferta de Bitcoin em lucro. No final de agosto, com o BTC perto dos 78 mil dólares, cerca de 68% da oferta estava em lucro, contra 65% quando o preço se encontrava num nível semelhante em maio, segundo a Glassnode.
A diferença sugere que o mercado chega a esta faixa de preço com uma estrutura ligeiramente mais saudável do que no episódio anterior. Ainda assim, uma parte relevante dos investidores continua próxima do ponto de equilíbrio, o que pode aumentar as vendas em momentos de recuperação.
Os ETFs à vista de Bitcoin nos Estados Unidos também ajudaram a sustentar o rali. No auge da subida, os fundos chegaram a receber, em média, 290 milhões de dólares por dia, enquanto o volume diário negociado nos ETFs se manteve perto dos 3 mil milhões de dólares.
A leitura geral é que o Bitcoin ganhou força como ativo sensível à liquidez, ao dólar e ao risco fiscal, aproximando-se do ouro em momentos de tensão no mercado de títulos. Mas ainda há dúvidas sobre a duração deste descolamento em relação às ações. Para os analistas, o próximo teste será saber se o BTC conseguirá transformar esta correlação maior com o ouro numa mudança mais duradoura — ou se voltará a mover-se junto com os ativos de risco assim que a pressão sobre os juros diminuir.
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