A Nasdaq Ventures investiu 100 milhões de dólares na Payward, empresa-mãe da Kraken, alargando uma parceria que as duas empresas firmaram em março e que abrange a negociação, custódia e liquidação de ações tokenizadas. A Bloomberg noticiou que o acordo avalia a Payward em 21 mil milhões de dólares, embora esse valor não conste do próprio anúncio do investimento feito pela Nasdaq.
A Nasdaq Ventures, o braço de capital de risco da operadora bolsista criado em 2017, detém participações minoritárias em várias dezenas de startups de infraestrutura de mercado. O investimento na Payward é uma das suas apostas mais visíveis, num momento em que as bolsas tradicionais correm para construir a infraestrutura necessária à negociação de títulos tokenizados 24 horas por dia.
A avaliação implícita neste acordo representa uma subida de mil milhões de dólares em relação à ronda de financiamento anterior da Kraken. A corretora encerrou uma angariação em duas tranches no final de 2025, num total de 800 milhões de dólares, com base numa avaliação de 20 mil milhões de dólares. A Kraken tem também expandido a sua atuação além da negociação de criptomoedas, tendo adquirido a corretora norte-americana NinjaTrader por 1,5 mil milhões de dólares, e prepara uma oferta pública inicial.
xStocks e a questão da fungibilidade
A Kraken opera o seu próprio produto de ações tokenizadas, a xStocks, desde junho de 2025, desenvolvido com a emitente suíça Backed Finance. A oferta cobre cerca de 60 ações e ETFs norte-americanos na blockchain Solana e está disponível para clientes fora dos Estados Unidos. A Kraken opera este produto fora dos Estados Unidos há mais de um ano.
As ambições da própria Nasdaq são mais restritas em estrutura, mas potencialmente mais amplas em alcance. Em setembro de 2025, a bolsa apresentou um pedido à SEC, a autoridade reguladora dos mercados dos EUA, para permitir que versões tokenizadas e tradicionais do mesmo título negoceiem em conjunto num único livro de ordens, mantendo-se a liquidação na Depository Trust & Clearing Corporation. A condição da Nasdaq é que qualquer ação tokenizada se mantenha fungível com a ação ordinária, sem criar um mercado paralelo ou um preço distinto. A bolsa, que acolhe as cotações da Apple, da Microsoft e da Nvidia, pretende lançar o produto durante 2026, sujeito à aprovação da SEC.
Um terreno concorrido
A Nasdaq não é a única a disputar este terreno. A Intercontinental Exchange, dona da Bolsa de Nova Iorque, comprometeu até 2 mil milhões de dólares na Polymarket. A CME Group prepara uma listagem de criptomoedas com negociação sete dias por semana. A Robinhood distribui ações tokenizadas na Europa desde o verão de 2025, enquanto a Coinbase pressiona a SEC para permitir equivalentes de ações tokenizadas no mercado norte-americano.
Nem todos os operadores estabelecidos estão entusiasmados. A Citadel Securities escreveu à SEC a alertar que a tokenização arrisca fragmentar a liquidez por vários locais de negociação paralelos. O próprio regulador, sob a liderança do presidente Paul Atkins, lançou uma iniciativa chamada Project Crypto, destinada a adaptar as regras de negociação a títulos registados em blockchain.
Para os investidores europeus que observam de fora do perímetro regulatório norte-americano, o confronto entre o modelo fungível e liquidado pela DTCC da Nasdaq e a xStocks da Kraken, baseada na Solana, ilustra duas visões concorrentes sobre a forma como as ações tokenizadas poderão eventualmente chegar a um mercado mais amplo: uma ancorada na infraestrutura de compensação já existente, a outra construída de forma nativa sobre blockchains públicas.



