A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirmou a 17 de outubro de 2026 que o euro digital vai complementar, e não substituir, o dinheiro físico, numa altura em que o Eurosistema continua os preparativos para uma moeda que podera entrar em circulação ate 2029.
Lagarde fez estas declarações na reunião do Comite Monetário e Financeiro Internacional, realizada durante os Encontros Anuais do FMI. As suas afirmações surgem numa altura em que o BCE pressiona a União Europeia para finalizar, ate ao final de 2026, a legislação que regulará o euro digital, um calendario que o banco central considera necessário para manter o projeto nos eixos.
Caso se reúnam as condições legislativas e técnicas, o Conselho do BCE manteria a autoridade final sobre se e quando emitir o euro digital, com uma primeira emissão possível em 2029. Antes de qualquer lançamento ao público, o Eurosistema planeia um projeto-piloto interno com a duração de 12 meses, na segunda metade de 2027, envolvendo 36 prestadores de serviços de pagamento.
Um passivo do BCE, não um depósito bancário
O euro digital foi concebido como uma moeda digital de banco central, ou seja, seria um passivo direto do BCE e não dos bancos comerciais, distinto tanto dos depósitos bancários como das stablecoins privadas. Os bancos e os prestadores de serviços de pagamento ficariam encarregues da sua distribuição ao público.
Para limitar o impacto no sistema bancário, o euro digital não venceria juros, e aplicar-se-iam limites individuais de detenção para reduzir o risco de transferências em massa das contas bancárias.
Privacidade inspirada no dinheiro físico
O Eurosistema estruturou o modelo de privacidade com base no comportamento do dinheiro físico. Nos pagamentos offline, o objetivo é assegurar que apenas o pagador e o recetor conhecem os detalhes de uma transação, replicando o anonimato de uma troca em numerário. Nos pagamentos online, o próprio Eurosistema não deveria conseguir identificar os utilizadores, embora os intermediários financeiros mantenham as suas obrigações já existentes de verificação de identidade e cumprimento das regras de combate ao branqueamento de capitais.
Reduzir a dependência de redes de cartões estrangeiras
Parte da justificação do projeto é estratégica. O BCE estima que redes internacionais de pagamento como a Visa e a Mastercard processam mais de 60% dos pagamentos por cartão na zona euro. O euro digital destina-se, em parte, a reduzir a dependência europeia desta infraestrutura controlada por entidades estrangeiras, dando ao bloco uma alternativa de respaldo público para os pagamentos do dia a dia.
Com a legislação ainda pendente e a fase-piloto a mais de um ano de distância, o calendário do projeto continua dependente de um acordo político entre os legisladores da UE, que terão de aprovar o quadro legal antes de o Eurosistema poder avançar para a implementação.




