Os ETFs de Bitcoin à vista dos Estados Unidos registaram uma saída líquida de 635,6 milhões de dólares na quinta-feira (22), revertendo por completo as entradas de 528,4 milhões de dólares registadas no dia anterior. Foi a maior retirada diária de fundos destes produtos desde junho, numa altura de queda do mercado de criptomoedas e das bolsas norte-americanas.

Segundo dados compilados pelo The Block, o maior volume de resgates ocorreu no IBIT, da BlackRock, que perdeu 254,1 milhões de dólares. Seguem-se o FBTC, da Fidelity, com saídas de 217,5 milhões de dólares, e o ARKB, da Ark Invest e da 21Shares, com 109,4 milhões de dólares.

Os fundos da Bitwise e da Grayscale também registaram retiradas. A exceção foi o MSBT, da Morgan Stanley, que recebeu 2,3 milhões de dólares em novos investimentos. Os restantes ETFs não tiveram movimentos líquidos relevantes.

A inversão chama a atenção porque, na quarta-feira (21), os mesmos fundos tinham registado a maior entrada de capital em quase um mês. Nessa ocasião, BlackRock e Fidelity concentraram cerca de 85% das entradas, o que indicava uma retoma da procura institucional por Bitcoin.

Apesar da saída expressiva de quinta-feira, o saldo semanal mantém-se positivo. Entre segunda e quarta-feira, os ETFs receberam 1,08 mil milhões de dólares, o que deixou o resultado acumulado da semana em 442,7 milhões de dólares após os resgates mais recentes.

Desde que começaram a ser negociados nos Estados Unidos, em janeiro de 2024, os ETFs de Bitcoin à vista acumulam mais de 57 mil milhões de dólares em entradas líquidas e gerem mais de 100 mil milhões de dólares em ativos.

Os ETFs de Ethereum (ETH) também voltaram a registar saídas na quinta-feira, com resgates de 110,6 milhões de dólares, depois de terem recebido 14,9 milhões de dólares na sessão anterior.

Fundos ligados à Solana (SOL) e à Hyperliquid (HYPE) acompanharam o movimento negativo, enquanto os ETFs de XRP foram a exceção, com entradas líquidas de 3,6 milhões de dólares.

Queda das ações tecnológicas pressiona o Bitcoin

As retiradas dos ETFs aconteceram no meio de uma nova onda de aversão ao risco nos mercados internacionais, sobretudo entre as empresas tecnológicas.

Na quinta-feira, o índice Nasdaq Composite, que reúne as grandes empresas do setor, caiu 2,6%, registando a pior sessão desde junho. O S&P 500 recuou 1,2%, na maior queda diária desde julho.

O movimento foi impulsionado por resultados corporativos abaixo das expectativas, por preocupações com os elevados investimentos em inteligência artificial e pelo agravamento das tensões geopolíticas.

O Bitcoin acompanhou a pressão vendedora e chegou a ser negociado perto de 81.500 dólares nesta sexta-feira (23), acumulando uma queda de cerca de 3,4% em 24 horas, segundo dados do The Block.

A desvalorização provocou ainda liquidações de posições alavancadas. Nas últimas 24 horas, pelo menos 440 milhões de dólares em contratos de futuros de criptomoedas foram encerrados de forma forçada, dos quais 397 milhões de dólares correspondiam a apostas na valorização dos ativos, de acordo com a CoinGlass.

Jeff Anderson, responsável pelas operações norte-americanas da STS Digital, considera que o Bitcoin continua a apresentar uma forte correlação com as ações tecnológicas, sobretudo face às preocupações com as valorizações elevadas das empresas de inteligência artificial e o seu endividamento.

Para o especialista, porém, a queda recente ainda não representa necessariamente uma mudança de tendência. Destaca que a criptomoeda permanece numa faixa de negociação entre 80 mil e 86 mil dólares, e que a rutura de um desses níveis poderá indicar a próxima direção do mercado.

Já Lorris Beziers, analista sénior de finanças descentralizadas da Tesseract Group, tinha salientado que a continuidade das entradas nos ETFs seria importante para sustentar o Bitcoin na região entre 80 mil e 81 mil dólares.

Segundo ele, uma redução da procura institucional acompanhada da perda desse suporte indicaria um enfraquecimento do interesse comprador.

Apesar das incertezas, alguns indicadores sugerem que os investidores ainda mantêm expectativas de recuperação.

Nick Forster, fundador e CEO da plataforma de derivados Derive, afirmou ao The Block que a probabilidade implícita de o Bitcoin superar os 100 mil dólares até ao Natal subiu de 9,7% para 12% na última semana, segundo dados do mercado de opções da empresa.

Ao mesmo tempo, a probabilidade de a criptomoeda cair abaixo de 70 mil dólares diminuiu de 15,6% para 11%.

Estas percentagens refletem os preços dos contratos negociados na plataforma, e não previsões garantidas. Para Forster, a mudança indica que os operadores estão a aumentar a sua exposição a uma possível subida até ao final do ano, enquanto reduzem a procura por proteção contra quedas acentuadas.

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