O Bitcoin pode estar a aproximar-se do fim do seu atual mercado em baixa, segundo uma análise da Hashdex. A gestora comparou a duração dos últimos ciclos de queda da criptomoeda e identificou que o período iniciado após o pico de outubro de 2025 já se aproximava, no final de setembro, do tempo necessário para a formação de fundos nos três ciclos anteriores.
A conclusão faz parte do relatório Market Pulse do 3.º trimestre de 2026, divulgado pela Hashdex, que analisa o comportamento do mercado de criptomoedas, os principais acontecimentos económicos e os indicadores que podem influenciar os preços nos próximos meses.
Segundo o levantamento, o atual ciclo de baixa do Bitcoin acumulava 359 dias até 30 de setembro. Nos três períodos anteriores analisados pela gestora, os mercados em baixa tiveram duração de 411, 361 e 377 dias.
Isto significa que, no final do terceiro trimestre, o Bitcoin já tinha atravessado um período de desvalorização semelhante ao observado antes das principais recuperações da sua história.
A comparação sugere que a criptomoeda pode estar a aproximar-se de um momento de mudança de tendência, embora a Hashdex ressalve que ainda não existe confirmação de que o fundo do ciclo atual tenha sido atingido.
O estudo considera como mercado em baixa o intervalo entre o preço máximo de um ciclo e o valor mais baixo alcançado antes do início de uma nova fase de valorização.
Por esta metodologia, os períodos de queda entre novembro de 2011 e janeiro de 2015 duraram 411 dias. Entre janeiro de 2015 e dezembro de 2018, foram 361 dias, enquanto o ciclo encerrado em novembro de 2022 apresentou 377 dias de baixa.
A gestora observa, no entanto, que a duração dos ciclos não segue um padrão fixo. Mudanças nas condições económicas, na regulamentação e no comportamento dos investidores podem fazer com que o período atual seja maior ou menor do que os anteriores.
O relatório também recorda que o desempenho passado não garante resultados futuros. Assim, a proximidade histórica dos ciclos funciona como um indicador de mercado, e não como uma previsão de que o Bitcoin voltará necessariamente a subir.
A análise ganha relevância num momento de volatilidade da criptomoeda. Após a recuperação observada entre agosto e setembro, o Bitcoin voltou a enfrentar pressão em outubro, acompanhando as oscilações das bolsas internacionais e as preocupações com as taxas de juro norte-americanas e o setor de inteligência artificial.
Apesar deste cenário, a Hashdex identifica outros indicadores que podem favorecer a recuperação do BTC.
Bitcoin pode estar a ficar sem vendedores
Um dos principais sinais positivos destacados pela Hashdex é a redução da quantidade de bitcoins nas mãos de investidores de curto prazo.
Segundo o relatório, os chamados short-term holders, investidores que mantêm as suas moedas há menos de 155 dias, detinham apenas 16,1% da oferta de Bitcoin no encerramento de setembro. Esta é a percentagem mais baixa da série histórica utilizada pela gestora.
O dado é relevante porque estes investidores costumam negociar as suas criptomoedas com maior frequência, reagindo mais rapidamente às oscilações de preço e às notícias do mercado.
Quando a participação deste grupo diminui, uma parcela maior dos bitcoins fica nas mãos de investidores que mantêm as suas posições por períodos mais longos.
Na avaliação da Hashdex, esta mudança pode indicar uma redução da quantidade de participantes dispostos a vender as suas moedas no curto prazo. O relatório classifica o fenómeno como um possível esgotamento da oferta de vendedores marginais, expressão utilizada para designar os investidores que ainda podem pressionar os preços com novas vendas.
Isto também pode ajudar a explicar por que razão determinadas notícias negativas tiveram impacto limitado sobre o Bitcoin durante o terceiro trimestre.
Um dos exemplos apresentados pela gestora envolve a Strategy, empresa de Michael Saylor e maior detentora corporativa de Bitcoin. Segundo o estudo, a primeira venda de bitcoins realizada pela empresa, em junho, foi acompanhada por um período de queda de 14,7% na criptomoeda.
Já as três vendas seguintes, realizadas durante o terceiro trimestre, tiveram um impacto consideravelmente menor sobre o mercado.
A Hashdex interpreta esta diferença como um sinal de que os investidores podem ter absorvido melhor a pressão vendedora, num ambiente em que restariam menos participantes dispostos a desfazer-se das suas moedas.
A diminuição da oferta de curto prazo, porém, não garante uma valorização. O preço do Bitcoin depende também da entrada de novos compradores, da liquidez disponível e das condições económicas globais.
Bitcoin aproxima-se do ouro e afasta-se das ações tecnológicas
Outro ponto destacado pela Hashdex é uma mudança no comportamento do Bitcoin em relação a outros investimentos.
Durante parte de 2026, a criptomoeda apresentou movimentos semelhantes aos das ações de empresas tecnológicas, acompanhando em particular o desempenho do Nasdaq 100.
Entretanto, esta relação enfraqueceu durante o terceiro trimestre, enquanto a correlação entre o Bitcoin e o ouro aumentou.
Segundo o levantamento, no encerramento de setembro, a correlação a 30 dias entre o Bitcoin e o ouro estava em aproximadamente 0,54, enquanto a relação com o Nasdaq 100 era de 0,42.
A correlação é um indicador que mede a semelhança entre os movimentos de dois investimentos. Quanto mais próximo de 1, maior é a tendência de os ativos variarem na mesma direção.
Na interpretação da Hashdex, a aproximação ao ouro pode indicar uma procura maior pelo Bitcoin como instrumento de proteção contra a perda de valor das moedas tradicionais.
A gestora argumenta que a expansão da quantidade de dinheiro em circulação e o enfraquecimento do dólar podem beneficiar ativos cuja oferta é limitada ou previsível, como o ouro e o Bitcoin.
O relatório destaca ainda que os governos passaram a manter quantidades crescentes da criptomoeda nas suas reservas. Segundo os dados reunidos pela Hashdex, as reservas de Bitcoin sob custódia de governos aumentaram aproximadamente 80% desde 2020, atingindo 598.428 unidades no final de setembro de 2026.
A maior parte deste montante ainda tem origem em apreensões judiciais, mas a decisão dos Estados Unidos de manter determinados bitcoins apreendidos em vez de os vender representa, na avaliação da gestora, uma mudança na forma como os governos encaram a criptomoeda.
Apesar disso, a correlação entre diferentes investimentos pode mudar rapidamente. Os dados apresentados pela Hashdex refletem o comportamento observado até setembro e não significam que o Bitcoin tenha deixado definitivamente de acompanhar as ações tecnológicas.
Risco de novas quedas
Embora identifique sinais de que o mercado em baixa pode estar próximo do fim, a Hashdex apresenta também fatores que exigem cautela por parte dos investidores.
Um dos principais é o comportamento do Índice de Medo e Ganância, indicador utilizado para medir o sentimento predominante no mercado de criptomoedas.
Segundo o relatório, o índice voltou à região de ganância durante o terceiro trimestre, depois de passar meses em níveis associados a medo extremo.
A gestora analisou o histórico do Bitcoin desde 2018 e identificou que leituras superiores a 55 pontos no indicador foram seguidas por uma queda máxima mediana de aproximadamente 20% nos três meses seguintes. Isto significa que, historicamente, períodos de maior otimismo também apresentaram riscos relevantes de correção.
A percentagem de 20% representa a mediana das maiores quedas observadas nas janelas analisadas, e não uma previsão de desvalorização para os próximos meses.
Outro risco destacado pela Hashdex é a concorrência entre os setores das criptomoedas e da inteligência artificial pelos recursos dos investidores.
Segundo o estudo, só no primeiro trimestre de 2026, as empresas de inteligência artificial receberam aproximadamente cinco vezes mais investimento de capital de risco do que todo o setor cripto tinha captado desde 2023.
A diferença pode limitar a disponibilidade de recursos para startups e projetos de blockchain, especialmente num ambiente de maior seletividade por parte dos investidores.
A gestora acompanha também os desenvolvimentos da regulamentação norte-americana, em particular o CLARITY Act, projeto de lei que pretende estabelecer regras mais claras para o mercado de ativos digitais nos Estados Unidos. Na Europa, o quadro equivalente é o regulamento MiCA, já em vigor sob supervisão da ESMA e das autoridades nacionais competentes.
A votação do projeto foi adiada no Senado norte-americano, aumentando as incertezas quanto à sua aprovação antes do encerramento da atual legislatura, em janeiro de 2027.
Caso isso não aconteça, a proposta poderá ter de ser reapresentada no Congresso, prolongando as discussões sobre a regulamentação do setor.
Para a Hashdex, o conjunto destes fatores mostra que o Bitcoin atravessa um momento importante do seu ciclo de mercado.
A proximidade da duração histórica dos períodos de baixa, a redução da participação de investidores de curto prazo e a mudança na correlação com outros ativos são sinais considerados relevantes pela gestora.
Entretanto, a possibilidade de novas correções, as incertezas económicas e os riscos regulatórios indicam que o fim do mercado em baixa ainda não pode ser considerado confirmado.
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