Dezasseis anos depois de Satoshi Nakamoto ter anunciado o primeiro cliente de Bitcoin, a 8 de janeiro de 2009, um programador conseguiu reproduzir byte a byte o ficheiro bitcoin.exe original a partir do código-fonte publicado. O projeto, disponibilizado no GitHub sob o nome t4t5/bitcoin-0.1-rebuilt, oferece a confirmação técnica mais clara até agora de que o executável distribuído em 2009 provinha diretamente do código-fonte lançado por Nakamoto, sem nada acrescentado ou oculto no interior.

O ficheiro reconstruído corresponde exatamente ao original: mesmo hash SHA-256, mesmo tamanho de 6.440.960 bytes. Para chegar a este resultado, o programador trabalhou a partir de pistas forenses incorporadas no próprio binário. A compilação foi concluída a 10 de janeiro de 2009, utilizando MinGW GCC 3.4.5 numa máquina com Windows XP, e não com Visual C++ 6.0 como alguns poderiam supor. O caminho de compilação interno do binário resolveu essa questão de forma direta.

Para reproduzir o ambiente de compilação quase duas décadas depois, o projeto executou a compilação em Linux, recorrendo ao Wine para emular Windows de 32 bits. De acordo com o ficheiro readme do repositório, a primeira tentativa de compilação bem-sucedida demorou cerca de seis minutos. Ao longo do processo, surgiu uma particularidade: um teste do Berkeley DB falha de uma forma que só ocorre em ficheiros de sistema genuínos do Windows XP, reforçando ainda mais a ligação da compilação ao sistema operativo da época.

Hashes correspondentes, limites assumidos

Os hashes do arquivo .rar produzidos pelo projeto correspondem aos já publicados pelo Satoshi Nakamoto Institute, reforçando a cadeia de autenticidade. Mas o projeto é cauteloso quanto ao que realmente prova. O arquivo bitcoin-0.1.0 utilizado não é o pacote do dia do lançamento, 8 de janeiro, já que não sobreviveu nenhuma cópia verificada desse ficheiro original; trata-se antes da atualização de 10 de janeiro. O script também copia três carimbos temporais lidos diretamente do ficheiro original, em vez de os descobrir de forma independente, um pormenor que o repositório não oculta.

Outros detalhes acrescentam contexto, mas não prova. Os cabeçalhos do arquivo mostram carimbos temporais definidos manualmente, com precisão ao minuto, e Nakamoto empacotou o software utilizando uma versão do WinRAR que já tinha, na altura, mais de três anos. As próprias palavras de Nakamoto no anúncio de lançamento, "Windows only for now" ("apenas Windows, por agora"), são um lembrete do quão limitado era o alcance inicial do software.

Porque ainda importa

O exercício não é mera nostalgia. A história mais antiga do Bitcoin continua a ser um ponto de referência num mercado onde as carteiras da era Nakamoto ainda chamam a atenção. Em outubro passado, 100 BTC da era Satoshi foram movimentados depois de dezasseis anos de inatividade, e estima-se que Nakamoto detenha 71 mil milhões de dólares em BTC, uma cifra que mantém sob escrutínio qualquer movimento de moedas da fase inicial. Os hashes do binário reconstruído são públicos, o que significa que qualquer pessoa com paciência para montar o mesmo conjunto de ferramentas pode repetir a compilação e verificar o resultado de forma independente, em vez de aceitar as conclusões do projeto apenas pela confiança.