A Liquid Network, a sidechain de bitcoin construída pela Blockstream, apresenta-se como uma federação de mais de 80 empresas. Na prática, o número de empresas que consegue efetivamente movimentar o bitcoin que suporta o token L-BTC da rede é muito menor: 15. Entre os funcionários identificados estão a própria Blockstream e a Nym Technologies. Essa diferença entre a governação nominal e o controlo operacional tornou-se o centro das atenções depois de um incidente ocorrido a 6 de setembro que retirou à reserva da federação quase a totalidade das suas participações.

Os 15 funcionários operam ao abrigo de um esquema de multiassinatura 11-de-15, o que significa que qualquer levantamento requer a aprovação de onze dos quinze signatários autorizados. A 6 de setembro, esse limiar foi atingido para uma transação que libertou 3.996 BTC — cerca de 95% da reserva da federação — para um único endereço. A reserva, que rondava os 4.200 BTC, caiu para apenas 197 BTC numa única operação.

Fundos devolvidos, mas dúvidas persistem

Os responsáveis pelo levantamento devolveram posteriormente cerca de 3.400 BTC, no valor de quase 285 milhões de dólares à data, ao endereço de reserva da federação. A parte responsável pela transação referiu-se a si própria com o termo "hackers éticos". Não foram divulgadas a identidade por trás da transação nem a via técnica exata através da qual o levantamento contornou os controlos da federação.

O episódio chamou a atenção para o funcionamento do sistema de lista branca da Liquid, conhecido como PAK, que determina quais os endereços que podem receber bitcoin levantado. Alterar uma entrada na lista branca demora três dias em condições normais. A rede dispõe ainda de um mecanismo de recuperação de emergência com um período de espera de cerca de 56 dias, mas este nunca foi ativado durante o incidente.

Carteiras e corretoras afetadas

A perturbação atingiu empresas construídas sobre a Liquid. A SideSwap, membro da federação que permite converter L-BTC em BTC através de um endereço na lista branca, foi afetada pela suspensão da atividade da rede. Os utilizadores da Aqua Wallet viram os seus fundos temporariamente congelados em resultado disso. À data desta reportagem, a Liquid Network permanecia suspensa, impedindo os detentores de resgatar L-BTC por bitcoin real.

A federação inclui nomes conhecidos da indústria do bitcoin, como a Ledger, a BullBitcoin, a Bitfinex, a Breez, a JAN3 e a Mempool, ainda que pertencer à federação não equivalha a deter poder de assinatura. Apenas os 15 funcionários detêm esse poder na estrutura atual.

Uma reestruturação pendente

A Blockstream e a federação têm trabalhado numa atualização designada Dynamic Federations, que alargaria o conjunto de signatários para além dos atuais 15 e ajustaria a forma como as chaves de emergência são geridas. O incidente de 6 de setembro deverá conferir maior urgência a esse trabalho, tendo em conta o grau de concentração de controlo revelado numa rede cuja adesão se conta às dezenas, mas cujo poder de assinatura assenta numa fração desse grupo.