Uma funcionalidade introduzida no Ethereum em 2025 para facilitar o uso de carteiras de criptomoedas foi uma das ferramentas utilizadas no ataque hacker de milhares de milhões contra a Binance. Conhecida como EIP-7702, a tecnologia permitiu que os criminosos assumissem o controlo de uma carteira da corretora e roubassem aproximadamente 2,5 mil milhões de dólares em ETH e outros tokens em menos de quatro minutos.
O valor representa apenas parte dos cerca de 6,3 mil milhões de dólares roubados à Binance na quinta-feira (29), no maior ataque hacker alguma vez registado no mercado de criptomoedas. A invasão envolveu diferentes blockchains, incluindo Bitcoin, Ethereum, Solana e Tron, e levantou questões sobre a segurança dos sistemas utilizados pelas grandes corretoras para autorizar transações.
Segundo uma investigação publicada pelo CoinDesk nesta sexta-feira, o criminoso conseguiu utilizar uma autorização digital válida para fazer com que uma carteira da Binance executasse um contrato inteligente controlado por ele. Com isso, passou a movimentar os fundos sem precisar de uma nova aprovação da corretora para cada transferência.
O ataque explorou uma característica da EIP-7702, implementada na atualização Pectra do Ethereum, em maio de 2025. A funcionalidade foi desenvolvida para tornar as carteiras mais flexíveis e facilitar operações do dia a dia, mas também pode representar um risco quando utilizadores ou instituições autorizam a execução de códigos maliciosos.
Como a atualização do Ethereum foi utilizada no ataque
Para entender o ataque, é preciso compreender o funcionamento da EIP-7702. Antes desta atualização, as carteiras tradicionais do Ethereum eram controladas diretamente por chaves privadas, responsáveis por autorizar cada transação. Já as carteiras baseadas em contratos inteligentes podiam executar operações mais complexas, como estabelecer limites de gastos ou agrupar diferentes transferências.
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A EIP-7702 aproximou estes dois modelos ao permitir que carteiras tradicionais utilizem funcionalidades de contratos inteligentes sem precisar de transferir os seus fundos para outro endereço.
Na prática, isto significa que uma carteira pode autorizar a execução de um código externo para realizar determinadas operações. Entre as aplicações legítimas estão a possibilidade de agrupar várias transações numa única operação e permitir que terceiros paguem as taxas de rede.
O problema é que, se o contrato autorizado for malicioso, também poderá movimentar os fundos da carteira. Além disso, a autorização pode continuar válida até ser substituída ou revogada, permitindo que se realizem novas transferências enquanto o código se mantiver ativo.
Foi precisamente este mecanismo que surgiu na investigação sobre o ataque à Binance.
De acordo com a reconstrução das transações realizada pelo CoinDesk, o criminoso preparou um contrato inteligente concebido para retirar automaticamente os fundos de uma carteira identificada como "Binance 14".
Às 20h20 de quinta-feira, hora de Lisboa, o invasor enviou uma transação contendo 50 autorizações digitais assinadas pela própria carteira da Binance. Todas permitiam delegar o controlo da carteira ao contrato malicioso.
O número elevado de autorizações tinha uma explicação técnica. Como a carteira processava um grande volume de operações, o seu contador de transações, chamado nonce, mudava constantemente. O criminoso utilizou assinaturas com 50 valores consecutivos desse contador para aumentar as hipóteses de que pelo menos uma fosse aceite pela rede.
A estratégia funcionou. Uma das autorizações foi validada pelo Ethereum, permitindo que o contrato do invasor passasse a operar através da carteira da corretora.
Menos de quatro minutos depois, às 20h24, foram retirados aproximadamente 167.464 ETH e outros 63 tokens, incluindo cerca de 1,6 mil milhões de dólares em USDT.
A invasão não terminou nesse momento. Como os sistemas da Binance continuaram a direcionar depósitos para a carteira comprometida, o criminoso conseguiu retirar novos fundos em mais duas operações, realizadas às 21h04 e às 21h44.
Segundo a TRM Labs, o invasor também utilizou o controlo obtido sobre a Binance 14 para movimentar aproximadamente 823 milhões de dólares em USDC de outra carteira da corretora, identificada como Hot Wallet 34.
A autorização maliciosa manteve-se ativa durante quase quatro horas e só foi revogada na madrugada de sexta-feira.
Como é que o hacker conseguiu as autorizações?
Apesar de os dados registados na blockchain mostrarem como o dinheiro foi retirado, ainda não está totalmente esclarecido como é que o invasor conseguiu as assinaturas necessárias para executar o ataque.
Este é um ponto central da investigação, porque a EIP-7702 exige uma autorização válida da carteira cujo funcionamento vai ser modificado. Portanto, o criminoso não podia simplesmente escolher uma carteira e assumir o seu controlo sem obter uma assinatura reconhecida pela rede.
Richard Teng, co-CEO da Binance, afirmou nesta sexta-feira que as primeiras investigações apontaram para o comprometimento do computador de um engenheiro de DevOps da empresa. A suspeita inicial era de que a invasão teria permitido o acesso a um contentor de serviços utilizado pela corretora.
Entretanto, a Binance informou posteriormente que descobriu outros pontos de comprometimento durante a investigação, indicando que o ataque foi mais complexo do que se imaginava inicialmente.
Segundo Teng, não foram encontradas evidências de fuga das chaves privadas das carteiras, e ainda não foi possível determinar exatamente como os invasores conseguiram produzir as autorizações utilizadas nas diferentes blockchains.
Uma das hipóteses consideradas é que os criminosos tenham comprometido a infraestrutura responsável por assinar transações da Binance, fazendo com que os próprios sistemas da empresa produzissem autorizações aparentemente legítimas.
Esta possibilidade ganha força porque o ataque não ficou restrito ao Ethereum. Os invasores também conseguiram transferir 18.270 bitcoins, centenas de milhões de XRP e fundos de carteiras noutras redes que não utilizam a EIP-7702.
Ou seja, embora a atualização do Ethereum tenha sido explorada para retirar parte dos fundos, não explica por si só a invasão de milhares de milhões de dólares.
A TRM Labs identificou características semelhantes às de ataques anteriores atribuídos a hackers da Coreia do Norte, incluindo a invasão de 1,5 mil milhões de dólares contra a Bybit, em fevereiro de 2025. A empresa de análise blockchain apontou elevada confiança no envolvimento do mesmo grupo criminoso, embora a autoria ainda não tenha sido confirmada pela Binance.
A EIP-7702 representa um risco para os utilizadores do Ethereum?
O episódio também reacendeu o debate sobre os riscos associados à EIP-7702, uma das principais novidades da atualização Pectra, desenvolvida para aproximar as carteiras tradicionais das funcionalidades oferecidas pelos contratos inteligentes.
A proposta, que teve o cofundador do Ethereum Vitalik Buterin entre os seus autores, procura melhorar a experiência dos utilizadores ao permitir operações mais simples e flexíveis, reduzindo as etapas necessárias para utilizar aplicações descentralizadas.
No entanto, a própria documentação técnica da EIP-7702 reconhece os riscos associados à delegação de permissões. Isto porque um contrato autorizado pode receber amplos poderes para executar operações em nome da carteira.
O problema já tinha chamado a atenção de especialistas pouco depois da implementação da atualização. Em junho de 2025, a empresa de trading Wintermute identificou que mais de 80% das delegações realizadas através da EIP-7702 apontavam para cópias de um mesmo contrato malicioso, concebido para transferir automaticamente fundos de carteiras comprometidas.
Isto não significa, porém, que a atualização tenha uma vulnerabilidade que permita roubar criptomoedas a qualquer utilizador. O risco surge quando uma autorização válida é concedida a um código malicioso, seja através de burlas que induzem o utilizador a assinar permissões, seja pelo comprometimento dos sistemas responsáveis por produzir essas assinaturas.
No caso da Binance, as investigações apontam para esta segunda possibilidade, embora a origem exata das autorizações ainda não tenha sido esclarecida.
O episódio evidencia que uma funcionalidade desenvolvida para facilitar o uso de criptomoedas também pode ampliar os danos de uma invasão caso os mecanismos de autorização sejam comprometidos.
Enquanto as investigações continuam, a Binance afirma que vai cobrir as perdas com recursos próprios e com o seu fundo de proteção aos utilizadores, conhecido como SAFU. A corretora informou ainda que aproximadamente 3 mil milhões de dólares dos ativos afetados já tinham sido congelados, principalmente com o auxílio de emissores de stablecoins. O congelamento, no entanto, não significa necessariamente que todos esses fundos venham a ser recuperados.
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