Menos de um ano depois de entrar num programa de formação em São Paulo, o desenvolvedor Erick Cestari estava em Berlim, a apresentar a sua investigação sobre segurança numa das principais conferências internacionais da rede Lightning. No mesmo período, passou quatro meses como estagiário de engenharia de segurança na Lightning Labs, uma das empresas mais importantes do ecossistema Bitcoin a nível mundial.
A trajetória não é excepção. O relatório do quarto ano da Vinteum, organização sem fins lucrativos que financia o desenvolvimento open source de Bitcoin no Brasil e na América Latina, publicado hoje, mostra que a primeira turma do seu programa de formação, o Bitcoin Dev Launchpad, produziu resultados concretos: ex-participantes conquistaram bolsas independentes de organizações internacionais como a OpenSats e a BDK Foundation, foram contratados por empresas globais do sector — Boltz, Second e Lightning Labs — e dois deles tornaram-se beneficiários de bolsas da própria Vinteum.
A Vinteum também apoiou a participação de contribuidores em conferências, workshops, residências e encontros de colaboração no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Estas experiências permitem que desenvolvedores brasileiros trabalhem diretamente com mantenedores, investigadores e outros contribuidores, construindo as relações e a confiança necessárias para uma participação duradoura em projetos globais.
Atualmente, 36 membros da comunidade Vinteum trabalham ativamente no desenvolvimento open source de Bitcoin, o software de código aberto que sustenta a rede a nível global. Destes, 8 são desenvolvedores financiados diretamente por bolsas da organização e 13 são fellows em formação a tempo integral.
O desafio de formar desenvolvedores na era da IA
A descoberta mais inesperada do relatório está na segunda turma do programa, que teve de ser reformulada devido à inteligência artificial. As ferramentas de IA produzem hoje código plausível mesmo quando quem as utiliza não compreende de facto o problema — o que tornou insuficiente avaliar os candidatos apenas pelo que entregam.
A resposta da Vinteum foi mudar o que se mede: discussões individuais, revisão iterativa e a capacidade de explicar, defender e melhorar as próprias decisões passaram a pesar mais do que o volume de código produzido.
Antes de enviarem contribuições para os projetos oficiais, os participantes passaram a trabalhar em cópias supervisionadas, revistas internamente por desenvolvedores experientes — e mantenedores de projetos internacionais comentaram positivamente a maturidade das contribuições que passaram por este filtro.
“O nosso objetivo não é maximizar o número de pessoas que entram no programa ou a quantidade de pull requests produzidos”, afirma Lucas Ferreira, cofundador e diretor-executivo da Vinteum. “Queremos ajudar mais pessoas a tornarem-se contribuidores independentes, fiáveis e capazes de assumir responsabilidades de longo prazo em projetos open source de Bitcoin.”
Este modelo é, por conceção, intensivo e personalizado: cada desenvolvedor recebe mentoria próxima e acompanhamento individual, com discussões sustentadas sobre as suas decisões técnicas — o que significa que o programa cresce de forma deliberadamente seletiva, priorizando a profundidade em vez do volume.
A seleção da segunda turma reflete esse rigor: mais de 300 candidaturas, 133 selecionados para iniciar, 23 convidados para a residência presencial e, no final, 12 fellowships e 2 bolsas diretas para os que demonstraram maior preparação para o trabalho de longo prazo.
“A minha jornada no open source começou com o Bitcoin Dev Launchpad da Vinteum, que se tornou a minha porta de entrada para o ecossistema Bitcoin e que, olhando para trás, foi quase uma Disneylândia para mim”, conta Lucas Balieiro, participante da primeira turma do programa.
“Depois do programa, fui selecionado para um fellowship e comecei a contribuir diretamente para a Stratum V2 Reference Implementation” — o software de referência do protocolo que dá a mineradores individuais mais controlo sobre a construção de blocos.
Um ecossistema que cresce além da organização
O relatório regista também a expansão da infraestrutura em torno do desenvolvimento de Bitcoin no Brasil: foram 67 encontros técnicos de comunidades BitDevs em nove cidades ao longo do ano, mais de 120 estudantes de oito universidades alcançados pelo Bitcoin Students Day, e dezenas de sessões online semanais recorrentes entre grupos de estudo, mentorias públicas e office hours. A Casa21, espaço físico da organização em São Paulo, passou a funcionar também como infraestrutura técnica partilhada, com servidores dedicados a testes e investigação.
Para o próximo ano, o desafio declarado no relatório é “consolidação com direção”: criar portas de entrada mais contínuas para novos desenvolvedores, através de seminários, universidades, comunidades locais e da Casa21, sem abdicar do acompanhamento intensivo que os resultados da primeira turma mostraram ser decisivo.
O relatório completo está disponível aqui.
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